A menina dos cabelos lisos que a mãe sempre dizia ser encaracolados só pra deixá-la mais feliz. A menina feia até cansar, magra demais, alta demais. Tudo pra ela era demais. Era megalomaníaco. O pouco era tão pouco, e o muito sempre foi demais. Alguns a olhavam de longe, mas nunca, em nenhuma hipótese ela foi realmente enxergada. Nem por ela mesma.
“Dor? Dor? Cadê você?” Ela dizia baixinho. Embaixo da cama não estava. Embaixo do travesseiro também não. Ela chegou a abrir gavetas e mexer incansavelmente em coisas velhas, mas também não estava lá. Ela já não a sentia mais. Ela já não podia sentir. Por incrível que pareça havia acabado. Havia, finalmente, acabado. Agora, assim, sabe? Agorinha mesmo. Ela mal podia acreditar.
Os seus dias eram de uma transparência sem profundidade, sem solavancos, sem lágrimas sofridas, eram apenas dias. E era disso que ela sentia falta. Era disso. Dessa normalidade cansada, dessa falta de subidas súbitas de batidas de coração, era a saudade da procura constante pelo que ela não sabe o que é, e nem quer saber só pra ter o gostinho de sempre continuar procurando. Ela transbordava leveza. Aquela. Aquela mesma leveza que você lembra de ter sentido na infância mas que na verdade nunca sabe ao certo se existiu. Os nós na garganta sumiram. E só voltam de vez em quando, quando ela lembra de como o mundo era idiota antes dela acordar pra ele, de como ela era idiota sem saber, e principalmente de como ela insistia, dia por dia, em gostar de ser.
Ela estava feliz. Feliz como nem ela sabia que poderia ser. Feliz até arder. Impossível que ninguém notasse.
A dor não foi achada em nenhum dos lugares que ela procurou. Mas ao acordar em uma manhã de domingo, bem no domingo, que ela sempre odiou, ao terminar de lavar o rosto ela se olhou no espelho e finalmente pode enxergar. E era lindo. Ela era linda. A dor tinha se esvaído. Tinha saído pela sua boca, pela suas mãos, pela sua saliva ácida. A dor tinha sumido. Tinha descido pelo ralo, junto com toda a sujeira amarga da realidade encarnada. Ela sabia que naquela manhã encoberta por nuvens e chovendo de mansinho ela se sentia, pela primeira vez, uma pessoa essencialmente pura. Até transbordar. Naquela manhã. Naquele dia. Naquele momento. O que é bem melhor que pra sempre. Agora ela podia entender.
E embora o coração estivesse vazio, os olhos nunca estiveram tão brilhantes.
Janna
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